Tariq Ali: derrota dos EUA pelo Talibã pode ser ponto de inflexão e lembra o Vietnã

Jornalista e ativista de esquerda, o paquistanês radicado na Inglaterra Tariq Ali afirmou, em texto publicado no portal Sidecar e traduzido pela Boitempo, que a tomada de Cabul, capital do Afeganistão, pelo Talibã “é uma grande derrota política e ideológica para o Império Estadunidense”.

Ele comparou a situação dos Estados Unidos no país, onde iniciaram uma guerra em 2001, com a derrota dos norte-americanos no Vietnã. “Os helicópteros lotados que transportavam funcionários da Embaixada dos Estados Unidos para o aeroporto de Cabul lembravam surpreendentemente as cenas em Saigon – agora Ho Chi Minh City – em abril de 1975”.

Ainda destacou a rapidez das forças talibãs em tomar conta do país e derrotar o governo apoiado pelos norte-americanos. “Foi impressionante e sua perspicácia estratégica notável”, segundo o autor, que complementa: “uma ofensiva de uma semana terminou triunfantemente em Cabul”.

“O exército afegão de 300.000 homens desmoronou. Muitos se recusaram a lutar. Na verdade, milhares deles foram para o Talibã, que imediatamente exigiu a rendição incondicional do governo fantoche. O presidente Ashraf Ghani, um dos favoritos da mídia estadunidense, fugiu do país e buscou refúgio em Omã. A bandeira do emirado revivido está agora tremulando sobre seu palácio presidencial”, destacou.

Ele lembrou, no entanto, que a melhor comparação com a situação é o Sudão do século XIX, “quando as forças do Mahdi invadiram Cartum e martirizaram o general Gordon”, que foi um “revés para o Império Britânico”, segundo o socialista inglês e designer daquele século William Morris, amigo próximo de Eleanor Marx, filha do fundador do marxismo.

Ali destacou, porém, que, ao contrário do do Sudão, onde os insurgentes sudaneses mataram uma guarnição inteira, “Cabul mudou de mãos com pouco derramamento de sangue”. “O Talibã nem mesmo tentou tomar a embaixada dos EUA, muito menos mirar no pessoal estadunidense”, destacou.

Crise do domínio dos EUA

Para ele, a derrota dos EUA era “previsível”. Ele ressalta que é um crítico há muito tempo das políticas do Talibã, fundamentalistas islâmicos, mas afirma que “sua conquista não pode ser negada”, pois “em um período em que os EUA destruíram um país árabe após o outro, não surgiu nenhuma resistência que pudesse desafiar os ocupantes”. “Essa derrota pode muito bem ser um ponto de inflexão”, disse

“É por isso que os políticos europeus estão reclamando. Eles apoiaram os EUA incondicionalmente no Afeganistão e também sofreram uma humilhação – nada mais do que a Grã-Bretanha”, afirma.

O autor destacou a crise da dominação norte-americana, que se encontrou sem saída, “pois o Talibã não poderia ser subjugado, não importa quanto tempo permanecesse”. Por isso, argumenta que “a noção de que a retirada precipitada de Biden de alguma forma fortaleceu os militantes é bobagem”.

Aumento da pobreza, da prostituição e do tráfico

Tariq Ali também destacou o crescimento da pobreza e da miséria no Afeganistão com a invasão imperialista, com o crescimento de uma “enorme favela” nas periferias de Cabul, “enquanto os pobres se reuniam para procurar o que quer que fosse nas latas de lixo”.

“Os baixos salários pagos aos serviços de segurança afegãos não conseguiram convencê-los a lutar contra seus compatriotas. O exército, formado ao longo de duas décadas, foi infiltrado em um estágio inicial por apoiadores do Talibã, que receberam treinamento gratuito no uso de equipamento militar moderno e atuaram como espiões da resistência afegã”, lembrou ainda.

Ainda, Tariq destaca que, enquanto durante os anos do governo Talibã “a produção de ópio foi rigorosamente monitorada”, “desde a invasão dos Estados Unidos, ele aumentou dramaticamente e agora representa 90% do mercado global de heroína” – o que, segundo o escritor, lembra a situação da Guerra do Ópio na China do século XIX.

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“Trilhões de dólares foram feitos em lucros e divididos entre os setores afegãos que serviram à ocupação. Os oficiais ocidentais foram generosamente pagos para permitir o comércio. Um em cada dez jovens afegãos agora é viciado em ópio”, afirma.

Enquanto a situação das mulheres, ponto principal da crítica contra o Talibã, “nada mudou muito”, destacou. “Houve pouco progresso social fora da Zona Verde infestada de ONGs”, argumenta. Por outro lado, com a ocupação dos EUA, houve o aumento da prostituição, “que cresceu para servir aos exércitos de ocupação”. Houve também vários relatos de estupro realizados pelos militares da ocupação.

“Durante a guerra civil iugoslava, a prostituição se multiplicou e a região tornou-se um centro de tráfico sexual. O envolvimento da ONU neste negócio lucrativo foi bem documentado. No Afeganistão, os detalhes completos ainda não foram revelados”, diz.

Ainda, Tariq mencionou o número inestimável de mortos pela guerra, os recursos trilionários gastos principalmente pelos governos de George W. Bush e Barack Obama e o enorme crescimento da corrupção sobre o governo imposto pelos EUA.

E agora?

Para a situação futura, Tariq prevê a retomada de ofensivas dos EUA, que se instalaram numa “unidade militar especial permanente, composta por 2.500 soldados, a ser estacionada em uma base do Kuwait, pronta para voar para o Afeganistão e bombardear, matar e mutilar caso seja necessário”.

Entretanto, destacou que, enquanto os EUA se recuperam da derrota, o Talibã deve fortalecer sua aliança com a China. “Com a Otan em retirada, os principais jogadores são China, Rússia, Irã e Paquistão (que sem dúvida forneceu assistência estratégica ao Talibã, e para quem este é um grande triunfo político-militar)”, afirma. 

“Há esperança de que os jovens afegãos se esforcem por uma vida melhor após o conflito de quarenta anos. Para as mulheres afegãs, a luta não acabou, mesmo que apenas um inimigo permaneça [o Talibã]”, destaca. 

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(Foto: Foto: Irving Tobias/Secretaría de Cultura CDMX)

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